A cremação consolidou-se como uma das modalidades funerárias de maior crescimento no Brasil, e Tiago Schietti é um dos empresários do setor cemiterial e funerário que observa de perto os desdobramentos dessa mudança sobre a infraestrutura, a gestão e o modelo de negócio das organizações do segmento. Os números sustentam a tendência: segundo dados da Acembra, o Brasil registrou um crescimento superior a 300% no número de cremações entre 2010 e 2023, saltando de aproximadamente 30 mil para mais de 120 mil procedimentos anuais, com projeção de continuar expandindo nas próximas décadas.
Neste artigo, você vai entender o que está por trás dessa mudança e o que ela exige das empresas do setor.
De exceção à escolha consolidada
Por décadas, a cremação foi tratada no Brasil como uma alternativa marginal, associada a contextos específicos de ausência de espaço em cemitérios ou a preferências de determinados grupos religiosos e culturais. Esse cenário mudou de forma expressiva. Pesquisas de comportamento do consumidor realizadas no setor nos últimos anos indicam que a decisão pela cremação passou a ser motivada, com crescente frequência, por valores como sustentabilidade, praticidade, custo e ressignificação do processo de luto.
Conforme elucida Tiago Schietti, essa virada cultural tem implicações diretas sobre o planejamento das empresas do setor. Cemitérios que operavam exclusivamente com sepultamento em solo precisaram rever sua infraestrutura, incorporar crematórios ou estabelecer parcerias operacionais, e ampliar o portfólio de serviços de memorialização para famílias que optam pela cremação, mas ainda desejam um espaço físico de referência para a preservação da memória.
O que impulsiona a escolha pela cremação?
A literatura especializada e os dados do setor apontam ao menos quatro vetores que explicam o crescimento da cremação no Brasil. O primeiro é econômico: o custo médio de um sepultamento com jazigo permanente em capitais brasileiras pode ser duas a três vezes superior ao de uma cremação com urna, tornando a segunda opção mais acessível para famílias de diferentes faixas de renda.
O segundo vetor é ambiental. O debate sobre sustentabilidade chegou ao mercado funerário com força crescente, e a cremação é frequentemente percebida pelas famílias como uma alternativa de menor impacto ao uso permanente de solo urbano. Embora a discussão técnica sobre o impacto ambiental comparativo entre cremação e sepultamento convencional seja mais complexa, a percepção do consumidor inclina-se progressivamente para modalidades que pareçam menos impactantes ao meio ambiente.
O terceiro fator é o processo de secularização da sociedade brasileira. Com a diversificação religiosa e o crescimento de pessoas sem filiação religiosa formal, a cremação, historicamente restrita ou desencorajada por algumas tradições cristãs, encontrou espaço em um público mais amplo e heterogêneo.
O quarto vetor, não menos relevante, é a mobilidade familiar. Em famílias geograficamente dispersas, nas quais filhos, cônjuges e parentes vivem em cidades ou países distintos, a cremação e a conservação das cinzas em urna facilitam a ritualização do luto em diferentes contextos e momentos, sem a necessidade de deslocamento a um cemitério específico.

Infraestrutura e novos serviços de memorialização
Na interpretação de Tiago Schietti, o crescimento da cremação não representa um esvaziamento do papel dos cemitérios, mas uma reconfiguração da oferta que esses espaços precisam desenvolver. Columbários, jardins de dispersão de cinzas, paredes e nichos de memória, além de plataformas digitais de homenagem, são extensões naturais de um modelo cemiterial que se adapta à nova demanda.
Grupos funerários que investiram na construção de crematórios próprios ou na ampliação de crematórios compartilhados registraram, nos últimos anos, retorno financeiro expressivo e redução da dependência de infraestrutura externa. A verticalização desse serviço, quando bem planejada, fortalece a capacidade operacional e amplia a margem de controle sobre a qualidade do atendimento prestado às famílias.
Tiago Schietti retrata ainda que a experiência da família no momento da cremação é um diferencial competitivo frequentemente subestimado. Salas de espera acolhedoras, cerimônias de entrega da urna conduzidas com sensibilidade e protocolos de acompanhamento posterior ao luto são elementos que distinguem organizações comprometidas com o atendimento humanizado daquelas que tratam o procedimento de forma estritamente operacional.
Regulação e padronização do setor
A expansão da cremação no Brasil esbarrou, historicamente, em gargalos regulatórios. A ausência de normas técnicas nacionais uniformes para a operação de crematórios gerou assimetrias significativas entre estados e municípios, com diferenças na exigência de laudos médicos, nos prazos mínimos para cremação após o óbito e nos critérios de funcionamento dos equipamentos.
Nos últimos anos, movimentos de associações como a Acembra pressionaram por maior harmonização regulatória, com avanços pontuais em alguns estados. Para Tiago Schietti, a consolidação de um marco técnico e jurídico mais sólido para a cremação é uma das condições para que o setor amadureça com consistência, protegendo tanto as famílias quanto as empresas que investem na modalidade.
A trajetória da cremação no Brasil é, em escala reduzida, o retrato de um setor inteiro em processo de transformação. Empresas que compreenderem esse movimento não apenas como dado estatístico, mas como sinal de uma mudança profunda nas expectativas do consumidor, estarão melhor posicionadas para oferecer serviços que respeitem tanto a dor do luto quanto a pluralidade das escolhas familiares.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez
