Conforme pondera o doutor Yuri Silva Portela, pós-graduado em geriatria, o mercado de suplementos voltados ao idoso cresceu de forma expressiva nas últimas décadas, impulsionado pela combinação de envelhecimento populacional, busca por soluções acessíveis para problemas complexos e marketing que frequentemente promete muito mais do que a ciência consegue comprovar.
Suplementos para memória, energia, imunidade e longevidade ocupam prateleiras de farmácias e chegam às casas dos idosos por indicação de familiares, amigos e vídeos nas redes sociais, muitas vezes sem qualquer avaliação médica prévia.
Vamos entender o que esses produtos realmente fazem, o que não fazem e quando podem ser genuinamente úteis.
O que a ciência diz sobre os mais vendidos?
Os suplementos mais frequentemente consumidos por idosos com a promessa de melhora cognitiva incluem ômega-3, ginkgo biloba, vitamina E, fosfatidilserina e complexos de vitaminas do complexo B. A revisão da literatura científica sobre cada um deles revela um panorama mais modesto do que o marketing sugere. O ômega-3 tem evidências consistentes de benefício cardiovascular e algum suporte para saúde cerebral em indivíduos com deficiência documentada, mas não demonstrou capacidade de reverter declínio cognitivo já instalado em estudos controlados de alta qualidade.
Como ressalta Yuri Silva Portela, o ginkgo biloba, talvez o suplemento mais associado à promessa de melhora de memória no imaginário popular, foi avaliado em estudos de grande porte que não demonstraram redução significativa do risco de demência ou melhora cognitiva em idosos saudáveis. Isso não significa que seja inútil em todos os contextos, mas significa que sua indicação indiscriminada sem avaliação individual não tem respaldo científico sólido, independentemente do quanto seu nome apareça em embalagens chamativas.
Quando a suplementação é genuinamente necessária?
A distinção mais importante que a medicina geriátrica precisa comunicar ao idoso e à família é a diferença entre suplementação para corrigir deficiência documentada e suplementação para otimizar funções já normais. Quando um idoso tem deficiência comprovada de vitamina B12, por exemplo, sua reposição pode reverter sintomas neurológicos, anemia e fadiga de forma expressiva. No entanto, quando esse mesmo suplemento é tomado sem deficiência documentada, os benefícios são mínimos ou inexistentes, e o dinheiro gasto poderia ser melhor direcionado para alimentação de qualidade.

Yuri Silva Portela frisa que a vitamina D merece menção especial nesse contexto. Afinal, sua deficiência é extremamente prevalente em idosos brasileiros, especialmente naqueles com baixa exposição solar e mobilidade reduzida, e está associada a maior risco de quedas, fraturas, declínio cognitivo e comprometimento imunológico. Dosar e repor a vitamina D quando necessário é uma intervenção com evidências sólidas de benefício, que se diferencia claramente da suplementação indiscriminada de produtos sem indicação clínica definida.
Os riscos que ninguém menciona na embalagem
Suplementos não são inócuos pelo simples fato de serem vendidos sem receita. Em idosos polimedicados, as interações entre suplementos e medicamentos prescritos podem produzir efeitos adversos significativos. O ômega-3 em doses elevadas aumenta o risco de sangramento em pacientes que usam anticoagulantes. A vitamina E em altas doses pode interferir com medicamentos cardiovasculares. Já suplementos de ferro sem indicação podem causar constipação grave e sobrecarga de ferro em pacientes sem deficiência documentada.
Conforme detalha Yuri Silva Portela, há ainda o risco de substituição: o idoso que gasta recursos financeiros limitados em suplementos caros frequentemente reduz a qualidade de sua alimentação ou atrasa a busca por cuidados médicos adequados, acreditando que os comprimidos estão resolvendo o problema. Esse deslocamento de recursos e de atenção para produtos sem eficácia comprovada é um dos danos menos visíveis e mais reais do mercado de suplementos para a terceira idade.
Como tomar decisões informadas sobre suplementação?
A melhor forma de avaliar se um suplemento é necessário para um idoso específico começa por uma avaliação laboratorial que identifique deficiências reais. A partir desse diagnóstico, a decisão sobre reposição pode ser tomada com base em evidências, com dose, duração e forma de administração adequadas ao perfil clínico do paciente. Essa abordagem, que exige consulta médica e exames, é mais trabalhosa do que comprar um frasco na farmácia, mas produz resultados reais, onde os produtos genéricos frequentemente produzem apenas expectativas.
Para Yuri Silva Portela, a melhor suplementação que um idoso pode receber começa no prato: uma alimentação variada, colorida e culturalmente significativa fornece a maioria dos nutrientes que o organismo envelhecido precisa de forma muito mais eficiente do que qualquer cápsula. Quando isso não é suficiente, a medicina tem ferramentas para identificar e corrigir o que falta com precisão e segurança.
