Felipe Rassi, especialista em créditos estressados, salienta que uma carteira de crédito inadimplido pode parecer diversificada quando analisada apenas pelo número total de créditos que a compõem, mas essa aparência pode esconder um nível de concentração que compromete significativamente o perfil de risco real daquela carteira. Avaliar essa concentração exige um processo específico de análise, que vai muito além de simplesmente contar quantos créditos diferentes existem dentro do portfólio.
Esse processo de avaliação da concentração é essencial porque uma carteira concentrada em poucos devedores de grande valor se comporta de forma muito diferente de uma carteira pulverizada entre muitos devedores de menor valor individual, mesmo que o volume total nominal seja idêntico entre as duas. Nos próximos tópicos, veja o roteiro completo para identificar o quanto uma carteira realmente depende de poucos devedores.
Mapear a distribuição de valor por devedor
O primeiro passo para avaliar a concentração de uma carteira é mapear como o valor total está distribuído entre os diferentes devedores que a compõem. Isso significa identificar se existe um pequeno número de créditos de valor elevado que representam uma parcela desproporcional do total da carteira, ou se o valor está distribuído de forma mais equilibrada entre um número maior de devedores com créditos de valor mais modesto.
Na perspectiva de Felipe Rassi, especialista jurídico no mercado de NPL, essa análise inicial de distribuição já revela muito sobre o perfil de risco da carteira: quanto maior a concentração em poucos devedores, maior a sensibilidade do resultado final da recuperação a eventos específicos que afetem justamente esses grandes créditos individuais.
Avaliar a correlação de risco entre os grandes devedores
Depois de identificar os créditos mais relevantes em termos de valor, o próximo passo é avaliar se esses grandes devedores compartilham características que possam correlacionar seus riscos de recuperação. Devedores do mesmo setor econômico, por exemplo, tendem a enfrentar dificuldades financeiras simultâneas em cenários de crise setorial específica, o que aumenta o risco de que a carteira sofra perdas concentradas em um único evento macroeconômico ou setorial.
Quando os principais devedores de uma carteira compartilham características como setor econômico ou região geográfica, eventos adversos específicos podem afetar simultaneamente vários desses créditos, ampliando o impacto de um único evento sobre o resultado total da carteira.

Felipe Rassi elucida que essa correlação de risco é frequentemente subestimada por compradores que avaliam cada crédito individualmente, sem considerar como eventos externos específicos podem afetar simultaneamente vários dos créditos mais relevantes dentro da mesma carteira.
Calcular índices de concentração específicos
Existem métricas quantitativas que ajudam a formalizar essa análise de concentração, permitindo comparar objetivamente diferentes carteiras entre si. Índices que medem a participação percentual dos maiores créditos sobre o valor total da carteira, ou que calculam a distribuição estatística do valor entre todos os devedores, oferecem uma forma padronizada de quantificar o quanto uma carteira específica está concentrada, facilitando comparações entre diferentes oportunidades de aquisição disponíveis no mercado.
Felipe Rassi, analista de mercado de ativos estressados, reflete que compradores mais sofisticados costumam estabelecer limites internos de concentração aceitável antes mesmo de iniciar a análise detalhada de uma carteira, descartando rapidamente oportunidades que excedem esses limites, independentemente da qualidade aparente dos créditos envolvidos.
Ajustar a estratégia de recuperação conforme o nível de concentração
Uma vez identificado o nível de concentração da carteira, a estratégia de recuperação precisa ser ajustada de acordo. Carteiras concentradas exigem atenção individualizada e intensiva aos grandes devedores, muitas vezes justificando negociações diretas e personalizadas, dado o peso que cada um desses créditos representa sobre o resultado total da operação. Carteiras pulverizadas, por outro lado, permitem estratégias mais padronizadas e automatizadas de cobrança, já que nenhum crédito individual tem peso suficiente para justificar tratamento excepcionalmente customizado.
Fundada nisso, essa diferença na estratégia de recuperação também afeta os custos operacionais esperados para cada tipo de carteira, o que precisa ser incorporado ao cálculo final de retorno esperado antes de qualquer decisão de aquisição.
O que essa análise revela sobre risco, além dos números agregados?
Avaliar a concentração de uma carteira de crédito estressado é o que permite identificar riscos que números agregados de inadimplência simplesmente não revelam. Conforme conclui Felipe Rassi, essa é uma das análises mais subestimadas por compradores menos experientes, que se concentram exclusivamente na qualidade individual de cada crédito, sem considerar como a distribuição desses créditos entre diferentes devedores afeta o perfil de risco da carteira como um todo.
Compreender e quantificar essa concentração é, portanto, um passo indispensável para qualquer due diligence completa, capaz de revelar vulnerabilidades estruturais que permanecem invisíveis para quem analisa apenas médias e totais agregados, sem investigar como o valor está efetivamente distribuído entre os diferentes devedores que compõem a carteira.
