A solidão pode se tornar mais presente na terceira idade quando mudanças na rotina reduzem o contato com outras pessoas. O Doutor Yuri Silva Portela, pós-graduado em geriatria e fundador do projeto social Humaniza Sertão, chama atenção para uma questão que vai além de estar fisicamente sozinho: a falta de vínculos significativos pode interferir na maneira como o idoso vivencia essa fase da vida. Por isso, manter conexões precisa fazer parte da conversa sobre qualidade de vida.
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Estar sozinho e sentir-se sozinho são coisas diferentes?
Uma pessoa pode morar sozinha e manter uma vida social ativa, assim como alguém que vive cercado de familiares pode experimentar sentimentos de isolamento. Segundo o Doutor Yuri Silva Portela, a diferença está na qualidade dos vínculos e na percepção que cada indivíduo tem sobre suas relações. Por isso, identificar a solidão exige observar mudanças no comportamento e não apenas na quantidade de pessoas presentes no cotidiano.
Na terceira idade, algumas transformações podem favorecer esse afastamento. A aposentadoria pode diminuir os contatos construídos durante a vida profissional, enquanto mudanças na família, dificuldades de mobilidade ou a perda de amigos podem reduzir as oportunidades de convivência. Aos poucos, uma rotina com menos encontros pode fazer com que o idoso deixe de participar de atividades que antes faziam parte de sua vida.
Como a solidão pode interferir na rotina do idoso?
Quando a convivência diminui, não é apenas o aspecto emocional que merece atenção. A falta de interação pode contribuir para uma rotina mais sedentária, reduzir o interesse por atividades e fazer com que determinadas necessidades deixem de ser percebidas por familiares e pessoas próximas. O isolamento também pode dificultar que o idoso procure ajuda quando percebe alguma mudança em sua saúde.

Outro ponto importante é que a solidão pode criar um ciclo difícil de interromper. Quanto menos uma pessoa participa de atividades sociais, mais difícil pode parecer retomar esses contatos. O Doutor Yuri Silva Portela observa que o cuidado com o idoso precisa considerar essa dimensão da vida cotidiana, já que saúde não se resume ao acompanhamento de doenças e tratamentos. Nesse quesito, identificar sinais de isolamento e estimular oportunidades de convivência também pode fazer parte de uma atenção mais completa à terceira idade.
O que pode ajudar a preservar os vínculos?
Manter conexões não significa obrigatoriamente criar uma agenda cheia. Uma conversa frequente com familiares, encontros com amigos, participação em grupos, atividades culturais, exercícios coletivos ou envolvimento em ações comunitárias podem oferecer oportunidades de convivência. O mais importante é que essas experiências façam sentido para a pessoa e respeitem seus interesses.
A tecnologia também pode aproximar quem está distante, comenta o Doutor Yuri Silva Portela. Chamadas de vídeo, mensagens e grupos virtuais permitem manter contato com familiares e amigos, mesmo quando encontros presenciais não são frequentes. Porém, o recurso digital funciona melhor quando complementa os relacionamentos, em vez de substituir completamente a convivência presencial. Para os idosos, aprender a utilizar essas ferramentas pode ampliar as possibilidades de comunicação e facilitar a manutenção de vínculos com pessoas que fazem parte de sua rotina.
A família consegue perceber quando o idoso está se isolando?
Nem sempre. Algumas pessoas não dizem diretamente que estão se sentindo sozinhas e podem apresentar mudanças mais discretas, como deixar de participar de encontros, recusar convites ou perder o interesse por atividades habituais. Observar essas alterações pode ajudar a identificar que algo mudou antes que o afastamento se torne parte permanente da rotina. A atenção de familiares e pessoas próximas pode ser importante para perceber essas mudanças e oferecer companhia ou incentivo para retomar atividades de convivência.
A abordagem também precisa evitar julgamentos. Dizer simplesmente que o idoso precisa “sair mais” pode não resolver o problema. É necessário compreender por que ele deixou de participar, se existem dificuldades de locomoção, insegurança, perdas recentes, limitações financeiras ou qualquer outra barreira. Assim como considera o Doutor Yuri Silva Portela, olhar para essas circunstâncias é fundamental para que o cuidado seja realmente individualizado.
