Mobilização nacional reuniu motociclistas em diversas cidades para pressionar plataformas digitais por reajuste na remuneração e regras mais claras de suspensão de contas
Entregadores de aplicativo realizaram, no início de setembro, uma paralisação de caráter nacional batizada de “Breque Geral dos Apps”. O movimento reuniu motociclistas em cidades como São Paulo, Santos, Goiânia e Anápolis, com o objetivo de pressionar plataformas como iFood, 99Food e Keeta por mudanças na forma de remuneração e por mais transparência nos critérios usados pelos sistemas digitais para bloquear contas de trabalhadores.
Em São Paulo, cerca de 300 motociclistas se concentraram na Praça Charles Miller, no Pacaembu, e seguiram em motociata até as sedes da 99 e do iFood, encerrando o protesto em frente ao prédio da própria iFood. A paralisação teve como foco central a revisão dos modelos de remuneração praticados pelas empresas de entrega, que hoje operam por meio de sistemas de precificação dinâmica controlados por algoritmos.
O que motivou o Breque Geral dos Apps
Entre as principais reivindicações da categoria está a criação de uma taxa mínima de dez reais para entregas de até quatro quilômetros, valor que os trabalhadores consideram compatível com os custos de combustível, manutenção das motocicletas e o tempo dedicado a cada corrida. Também constam entre as pautas críticas à modalidade “Mais Entregas”, do iFood, apontada pelos entregadores como um mecanismo que reduziria os ganhos por entrega em determinados horários.
Outro ponto central da mobilização é a exigência de regras mais claras para o bloqueio de contas nas plataformas. Segundo os organizadores do movimento, entregadores frequentemente têm o acesso ao aplicativo suspenso sem receber explicações detalhadas sobre os critérios utilizados pelos sistemas automatizados, o que dificulta qualquer tentativa de contestação da decisão junto às empresas.
A orientação dos organizadores durante o protesto era para que os trabalhadores permanecessem desconectados dos aplicativos ao longo do dia, como forma de demonstrar o impacto da categoria na operação das plataformas. A mobilização também teve repercussão no Distrito Federal, onde foram registrados episódios de tensão durante os atos realizados por entregadores locais.
Denúncia de prática antissindical nas plataformas
Durante os protestos em São Paulo, lideranças do movimento protocolaram uma representação no Ministério Público do Trabalho contra as empresas 99Food e Keeta. A denúncia aponta que as plataformas teriam oferecido bônus financeiros extras, entre três e nove reais por entrega, especificamente durante o horário da paralisação, em uma tentativa de manter entregadores conectados e esvaziar a adesão ao movimento.
Capturas de tela apresentadas pelos trabalhadores como parte da denúncia mostram os valores adicionais oferecidos em regiões específicas de São Paulo, como o bairro de Perdizes, durante o período do protesto. A representação pede que o órgão investigue se houve, de fato, uma tentativa deliberada de interferir na paralisação por meio de incentivos financeiros direcionados.
A oferta de remuneração variável não é considerada irregular por si só, já que faz parte do funcionamento normal das plataformas de entrega. O que os trabalhadores questionam é a coincidência entre os valores extras oferecidos e o horário exato da mobilização, argumento que embasa a suspeita de conduta antissindical. A Keeta, procurada pela imprensa, afirmou que os incentivos fazem parte de seu programa regular de bônus e não têm relação com a paralisação.
O impasse em torno da regulamentação do setor
Parte das reivindicações dos entregadores está diretamente ligada à tramitação do Projeto de Lei Complementar 152/2025, que trata da regulamentação do trabalho intermediado por aplicativos no Brasil. Segundo os organizadores do movimento, o texto em discussão no Congresso Nacional ainda não atende de forma adequada às demandas da categoria relacionadas à remuneração mínima e à proteção previdenciária dos trabalhadores.
A proposta legislativa busca estabelecer parâmetros para a relação entre entregadores, motoristas de aplicativo e as plataformas digitais, incluindo regras sobre jornada, segurança e inclusão previdenciária. O debate em torno do projeto, no entanto, segue sem consenso entre representantes dos trabalhadores e as próprias empresas do setor, o que tem alimentado sucessivas mobilizações ao longo dos últimos meses.
Enquanto a tramitação do projeto avança no Congresso, entidades que representam os entregadores continuam pressionando o governo federal por medidas mais imediatas, incluindo a possibilidade de uma medida provisória que estabeleça valores mínimos para as entregas realizadas por meio de plataformas digitais, sem que seja necessário aguardar a conclusão do processo legislativo mais amplo.
O episódio reforça um debate que já se estende por anos no Brasil, sobre como equilibrar a flexibilidade oferecida pelas plataformas digitais com garantias mínimas de renda e transparência para os trabalhadores que dependem desses aplicativos para exercer sua atividade profissional. A tendência apontada por especialistas é que novas paralisações continuem ocorrendo enquanto o PLP 152/2025 não avançar de forma definitiva no Congresso Nacional.
Fontes:
https://www.techtudo.com.br/noticias/2026/09/greve-dos-entregadores-motoboys-paralisam-ifood-99food-e-keeta-edapps.ghtml
https://autopapo.com.br/curta/entregadores-greve-nacional-cobrar-taxa-minima-transparencia/
https://www.portaldotransito.com.br/noticias/mobilidade-e-tecnologia/breque-dos-apps-entregadores-cobram-taxa-minima-e-transparencia-nos-bloqueios/
